
Tema: O disfarce que não cabe em lado nenhum
Uma gralha viu os pombos de um quintal sendo bem alimentados e encheu-se de inveja. Pintou-se de branco da cabeça aos pés e misturou-se ao bando. Enquanto ficou calada, ninguém desconfiou.
Um dia, porém, esqueceu-se e começou a tagarelar. Os pombos reconheceram a voz, viram o disfarce e a expulsaram a bicadas.
Ela voltou para as outras gralhas, mas estas não a reconheceram naquela roupa branca e também a enxotaram.
Assim ficou sem lugar: rejeitada pelos pombos que quis enganar e pelas gralhas que abandonou.
A voz a entregou. Todo disfarce tem um ponto fraco, e ele costuma ser exatamente aquilo que a gente é.
A moral: o fingimento consegue prato de comida por um tempo, mas cobra caro: no fim, o impostor não cabe em lugar nenhum.
“Mas nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido.” (Lucas 12.2)
Fonte: Esopo, “A gralha entre os pombos” (The Jackdaw and the Pigeons) in Aesop’s Fables — A New Translation, trad. V. S. Vernon Jones (1912), Projeto Gutenberg nº 11339 (domínio público). Recontada com minhas palavras.





